Vivemos um momento
de reconfiguração geopolítica profunda. Se olharmos as nações
como se fossem marcas (com valor de mercado, reputação, preferência
do público e capacidade de influenciar), estamos testemunhando uma
das maiores transferências de valor simbólico da história recente.
Enquanto algumas "marcas-país" se fortalecem, outras
enfrentam erosão acelerada de seu prestígio internacional. E os
dados mais recentes confirmam: China e Brasil estão em trajetória
ascendente, enquanto Estados Unidos e União Europeia estão perdendo
terreno.
A "Marca
China" Consolida sua Ascensão
Comecemos pela
China. O mais recente Global Soft Power Index 2026, divulgado em
janeiro pela consultoria Brand Finance com mais de 150 mil
entrevistados em mais de 100 países, mostra que a China não só
consolidou sua segunda posição no ranking global de soft power,
como foi a única nação entre as 10 primeiras a aumentar sua
pontuação neste ano, com alta de 0,7 pontos, chegando a 73,5 . E,
pela primeira vez, a China ultrapassou os Estados Unidos no quesito
reputação, subindo nove posições para alcançar o 18º lugar
global .
Por trás desses
números, há uma estratégia deliberada e multifacetada. A China
trabalhou muito para corrigir seus pontos fracos, que levavam à uma
percepção negativa no exterior. Só em 2025, a China melhorou 22
posições no pilar "Pessoas e Valores", 10 posições em
"Governança" e 7 posições em "Futuro Sustentável". Atributos como amabilidade (+27 posições), facilidade de
comunicação (+14) e generosidade (+14) mostram avanços
expressivos. Hoje, a China possui um ranking mais alto que os EUA em
19 dos 35 atributos medidos pelo índice .
No campo da
tecnologia e inovação, o desempenho chinês é avassalador. O
relatório Technology Top 100 da Brand Finance, também de fevereiro
de 2026, revela que a China ultrapassou o Japão e assumiu a
liderança global na percepção de tecnologia e inovação. São 25
marcas chinesas entre as 100 mais valiosas do setor, com crescimento
combinado de 27,1% no valor de marca, o maior entre as grandes
potências tecnológicas. TikTok e WeChat figuram entre as marcas
mais valiosas do mundo, enquanto o país consolida liderança em
veículos elétricos, inteligência artificial e energia renovável.
EUA: A Queda
Livre da Marca Americana
Enquanto a China
sobe, os Estados Unidos enfrentam a mais severa desvalorização de
sua marca nacional já registrada. O Global Soft Power Index 2026
aponta que os EUA tiveram a maior queda entre todas as 193 nações
avaliadas: recuo de 4,6 pontos, agora com 74,9. A reputação
americana despencou 11 posições, caindo para 26º lugar.
O chamado "Trump
Effect" é apontado como principal catalisador dessa erosão. As
políticas "America First" geraram retrocessos em
praticamente todos os atributos mensurados: queda de 68 posições em
generosidade (agora em 98º), 50 posições em boas relações com
outros países (99º), 32 posições em amabilidade (156º, a pior
métrica da história americana no índice), e 21 posições em
facilidade de fazer negócios. A confiança na marca EUA caiu 24
posições, enquanto indicadores de governança, direitos humanos e
estado de direito também recuaram .
Dados do Morning
Consult U.S. Reputation Tracker, atualizados em janeiro de 2026,
corroboram essa tendência: após uma breve recuperação no final de
2025, a favorabilidade global aos EUA voltou a cair, especialmente na
Europa e na América Latina, incluindo Brasil e México . A
intervenção na Venezuela e as ameaças à Groenlândia aprofundaram
a percepção negativa.
Europa: A Marca
em Crise de Identidade
A União Europeia,
como marca coletiva, também enfrenta ventos contrários severos. O
Global Soft Power Index mostra o Reino Unido em sua pior posição
histórica (4º lugar), com queda de 3,2 pontos, e perda de
capacidade de pautar a agenda global. Caiu de 2º para 6º no
atributo "assuntos que acompanho de perto". A Alemanha
registrou suas maiores quedas justamente nos atributos que
sustentavam sua reputação: economia forte e estável, liderança em
ciência e tecnologia .
França, Canadá,
Suécia e Austrália também apresentaram declínios expressivos. O
que estamos vendo é uma crise sistêmica das democracias ocidentais
como marcas confiáveis. A população global, mais cética e atenta,
passou a questionar a capacidade dessas nações de entregar as
promessas implícitas em suas marcas: estabilidade, prosperidade e
liderança moral.
Brasil: O Gigante
que Está Acordando
E o Brasil?
Surpreendentemente, a marca Brasil emerge como um dos grandes
vencedores deste novo cenário multipolar. Embora os dados
quantitativos específicos sobre a percepção internacional do
Brasil em 2026 ainda estejam sendo consolidados, há indicadores
robustos que sustentam essa leitura.
Primeiro, o Brasil
se beneficia do "efeito contraste": enquanto as potências
ocidentais tradicionais perdem prestígio, países como Brasil, Índia
e África do Sul ganham espaço como alternativas viáveis e
confiáveis. Estudo da MSLGroup já apontava, em pesquisas
anteriores, que consumidores brasileiros têm uma das percepções
mais positivas sobre empresas em geral, diferentemente do ceticismo
europeu.
Segundo, dados
setoriais mostram robustez. O mercado de "trend brands" no
Brasil deve alcançar US$ 16,5 bilhões até 2033, crescendo a 6,3%
ao ano, impulsionado por digitalização, ascensão da classe média
e foco em sustentabilidade. Uma pesquisa acadêmica da USP, publicada
na Emerald, revela que os consumidores brasileiros não apresentam
viés negativo em relação à origem dos produtos. Para as gerações
Y e Z, o que importa é a inovação, não o selo "made in".
Isso significa que o Brasil é um mercado aberto, receptivo e maduro
para marcas globais e investimentos externos, o que fortalece sua posição como hub de
negócios.
Terceiro, o Brasil
tem se posicionado como ator relevante no debate sobre transição
energética e sustentabilidade, temas que ganham centralidade na
agenda global. Enquanto os EUA retrocedem em apoio à ação
climática, o Brasil avança como protagonista da pauta verde.
Os números
concretos de 2025 escoram essa percepção. No front dos
investimentos, o Brasil avançou em acordos bilaterais estratégicos. Em termos de Investimentos Estrangeiros Diretos (IED), dados do Banco Central indicaram em 2025 entradas de, pelo menos, US$ 77,6 bilhões. No acumulado de janeiro a novembro, os dados apontavam superação em 13,5% do total de 2024, destacando-se o alto fluxo no último trimestre. Em novembro, um
acordo inédito entre o BID e o Banco Central do Brasil, no valor de
US$ 3,4 bilhões, criou mecanismos de cobertura cambial para atrair
investimento privado em energias renováveis e bioeconomia. Trata-se
de uma sinalização clara: o mundo quer investir no Brasil.
Mas talvez o
indicador mais visível do fortalecimento da marca Brasil venha do
turismo. Em 2025, o país recebeu mais de 9 milhões de visitantes
estrangeiros, um recorde histórico que representa um salto de 37% em
relação ao ano anterior. A Argentina lidera o ranking de
emissões, com 3,1 milhões de visitantes (alta de 82%), seguida por
Chile, Estados Unidos e Uruguai . O presidente da Embratur, Marcelo
Freixo, atribuiu o resultado a um “esforço bem-sucedido de
reposicionamento da imagem do Brasil no exterior”. Faz todo o
sentido: mais pessoas querendo conhecer o país é a tradução mais
literal possível do aumento de prestígio de uma marca.
O Que Isso
Significa para Quem Constrói Marcas
A principal lição
deste novo cenário é que marcas não existem no vácuo. Elas são
profundamente influenciadas pela percepção que as pessoas tem delas. Uma empresa americana hoje carrega o peso da erosão
reputacional de seu país; uma empresa chinesa, por outro lado,
navega em mares mais favoráveis.
Para nós,
profissionais de comunicação, o recado é claro: precisamos
entender as macrotendências geopolíticas como variáveis
estratégicas que não estão distantes de nós. Ao contrário, elas estão presentes no nosso dia a dia. Não se trata apenas de posicionamento de produto, mas
de navegação de marca em um mundo multipolar, onde as referências
tradicionais de autoridade e confiança estão sendo redesenhadas.
O Brasil, neste
contexto, emerge como uma marca na contramão da crise. Nossa
reputação internacional se fortalece justamente quando as potências
tradicionais enfrentam questionamentos. Cabe a nós, gestores de
comunicação, saber capitalizar esse momento, construindo marcas que
reflitam a complexidade e as oportunidades deste novo tempo,
entendendo que as mudanças gerais e globais tem incidência no
cotidiano local.
Como brasileiros,
sabemos que o Brasil não é para amadores. E agora, que uma era de incertezas se
abre para nós, começa a ficar claro que o mundo de hoje também não é
para amadores. É preciso ter visão estratégica, sensibilidade
cultural e coragem para reposicionar marcas em um cenário que muda a
cada dia.
O jogo geopolítico
está redefinindo o valor das nações, o valor das suas marcas. Quem
entender isso primeiro, sairá na frente, no mundo e no bairro. ///
*Por Paulo Cezar da Rosa, CEO do Grupo Veraz