terça-feira, 26 de maio de 2026

OS SINDICATOS VOLTARAM A CRESCER MAS PRECISAM MUDAR

 


Os dados mais recentes do IBGE (publicados no final de 2025) trouxeram um sinal importante para o sindicalismo  brasileiro. Depois de mais de uma década de queda contínua, a sindicalização voltou a crescer. Em 2024, 8,9% dos trabalhadores estavam associados a sindicatos, o equivalente a 9,1 milhões de pessoas. (Agência de Notícias - IBGE)

Este é um dado relevante, principalmente porque interrompe uma trajetória longa de retração. Em apenas um ano, foram mais 812 mil novos sindicalizados, um crescimento de 9,8%.

Mas é preciso olhar esses números com mais cuidado. Apesar da recuperação, o patamar atual ainda está muito distante do que já foi no passado. Em 2012, a taxa de sindicalização era de 16,1% dos trabalhadores. Hoje, mesmo após a alta, ela segue praticamente pela metade. 

Ou seja, não estamos diante de uma retomada consolidada. Estamos diante de uma inflexão. E parte desse crescimento recente está diretamente ligada à recuperação do emprego formal. Setores mais estruturados, como indústria e administração pública, puxaram essa alta. (CTB)

Isso revela um ponto importante. A base tradicional da organização sindical continua existindo, mas ela está concentrada e, em muitos casos, envelhecida. Mais da metade dos sindicalizados hoje tem mais de 40 anos, o que indica um problema claro de renovação. (FENAJUD)

Ou seja, o desafio dos sindicatos hoje não é apenas crescer em número de sindicalizados. É voltar a ser relevante para um trabalhador que mudou profundamente. Um trabalhador mais fragmentado, mais digital, mais desconfiado e menos conectado às estruturas tradicionais.

Ao mesmo tempo, o ambiente de trabalho também mudou. Houve aumento do trabalho informal, crescimento do empreendedorismo individual e novas formas de relação profissional. Isso dilui vínculos e torna a organização coletiva mais complexa.

Nesse cenário, existe um fator que se torna cada dia mais decisivo e que, muitas vezes, é subestimado: a comunicação. Não basta existir. Não basta representar. Não basta ter pauta. É preciso ser compreendido. É preciso ser percebido como útil. E, principalmente, é preciso ser relevante no cotidiano do trabalhador. Para tudo isso, é preciso comunicar bem. 

Os dados mostram que a base social ainda existe. O que está em disputa agora é a capacidade de conexão. A modernização da atividade sindical passa, inevitavelmente, pela forma como ela se comunica. Linguagem, canais, frequência, clareza e posicionamento deixaram de ser aspectos secundários. Passaram a ser centrais.

Temos mais de 30 anos de relação com os sindicatos. Talvez o principal erro ainda seja tratar comunicação como acessório. Em um ambiente saturado de informação, comunicação é estratégia. É presença. É disputa de atenção e de sentido. Hoje, mais ainda que no passado. 

O crescimento recente da sindicalização é um sinal positivo. Mas ele não resolve o problema estrutural. Ele apenas indica que existe espaço para reconstrução. A questão agora é quem vai conseguir ocupar esse espaço.

Porque, no final, não é sobre números. É sobre relevância. E a relevância, hoje, começa pelo o quê e como você comunica. ///

Por Paulo Cezar da Rosa 


terça-feira, 19 de maio de 2026

A criatividade brasileira pode ser o ativo mais valioso do país no novo mundo

O mundo está mudando rapidamente. Talvez mais rapidamente do que em qualquer outro período das últimas décadas. Novas potências econômicas surgem, antigas hegemonias entram em desgaste, a tecnologia reorganiza setores inteiros e a inteligência artificial começa a alterar profundamente a forma como produzimos, consumimos e nos comunicamos.

Nesse cenário de reorganização global, existe uma pergunta importante que o Brasil ainda faz pouco: qual é o nosso verdadeiro diferencial competitivo diante do mundo que está surgindo?

Tenho convicção de que uma das respostas mais fortes para essa pergunta está na criatividade brasileira.

Durante muito tempo, a criatividade foi tratada entre nós quase como um traço folclórico. Algo ligado apenas à arte, à publicidade, à música ou ao improviso cotidiano. Mas o mundo contemporâneo começa a mostrar que criatividade não é apenas expressão cultural. Criatividade é, ou pode ser, um ativo estratégico.

Em um ambiente cada vez mais automatizado, padronizado e guiado por sistemas de inteligência artificial, a capacidade de criar conexões inesperadas, interpretar contextos complexos e produzir soluções originais ganha ainda mais valor. E poucos países desenvolveram uma inteligência criativa tão singular quanto o Brasil. 

Pense na Petrobrás e na extração de petróleo em águas profundas que só o Brasil sabe fazer; no agro e nas soluções tecnológicas que a Embrapa criou colocando o Brasil como um celeiro do mundo; pense em Miguel Nicolelis e suas pesquisas sobre o cérebro que estão na base de quase tudo que há de novo; pense no Pix, que todo mundo está copiando. Às vezes nem percebemos, mas nossa criatividade está presente  em tudo o que fazemos. 

Nossa formação histórica produziu uma sociedade híbrida, diversa e altamente adaptativa. O brasileiro aprendeu, muitas vezes por necessidade, a operar em ambientes instáveis, ambíguos e contraditórios. Isso gerou repertório cultural, flexibilidade cognitiva e capacidade de reinvenção. Características que tendem a se tornar extremamente relevantes em um mundo menos linear.

Talvez exista aí um ponto que ainda não percebemos completamente. O avanço tecnológico não elimina a criatividade humana. Ao contrário. Quanto mais as ferramentas automatizam processos técnicos, mais valor ganha aquilo que não pode ser automatizado: visão, interpretação, sensibilidade cultural, repertório simbólico e originalidade. Numa palavra: criatividade. 

É justamente por isso que a criatividade brasileira pode ganhar protagonismo nos próximos anos. Não apenas na publicidade ou na produção cultural, onde também atuamos, mas em áreas como inovação, comunicação, design, entretenimento, tecnologia e construção de marca.

Sim, o risco de não vermos a importância deste imenso ativo essencialmente brasileiro é muito grande. O Brasil frequentemente subestima suas virtudes e riquezas. Existe uma tendência histórica de valorizar mais o que vem de fora e tratar nossas competências como improviso ou informalidade. Esse erro pode custar caro em um mundo onde a diferenciação passa a ser decisiva.

O novo cenário internacional, pelo menos durante um bom tempo, provavelmente será multipolar, mais fragmentado e mais competitivo. Países disputarão não apenas mercados, mas também influência cultural, capacidade narrativa e produção simbólica. Nesse ambiente, a criatividade deixa de ser detalhe. Passa a ser poder.

Talvez o maior desafio brasileiro seja justamente este: compreender que criatividade não é acessório. Não é ornamento. Não é apenas estética. Criatividade é inteligência aplicada à complexidade. E poucas sociedades no mundo aprenderam a lidar com a complexidade como o Brasil aprendeu.

No final, talvez nosso maior ativo não esteja no que tentamos copiar ou vender hoje ao mundo. Talvez ele esteja exatamente naquilo que o mundo ainda não conseguiu sufocar em nós e agora começa a ter inveja.

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Por Paulo Cezar da Rosa, CEO do Grupo Veraz