terça-feira, 19 de maio de 2026

A criatividade brasileira pode ser o ativo mais valioso do país no novo mundo

O mundo está mudando rapidamente. Talvez mais rapidamente do que em qualquer outro período das últimas décadas. Novas potências econômicas surgem, antigas hegemonias entram em desgaste, a tecnologia reorganiza setores inteiros e a inteligência artificial começa a alterar profundamente a forma como produzimos, consumimos e nos comunicamos.

Nesse cenário de reorganização global, existe uma pergunta importante que o Brasil ainda faz pouco: qual é o nosso verdadeiro diferencial competitivo diante do mundo que está surgindo?

Tenho convicção de que uma das respostas mais fortes para essa pergunta está na criatividade brasileira.

Durante muito tempo, a criatividade foi tratada entre nós quase como um traço folclórico. Algo ligado apenas à arte, à publicidade, à música ou ao improviso cotidiano. Mas o mundo contemporâneo começa a mostrar que criatividade não é apenas expressão cultural. Criatividade é, ou pode ser, um ativo estratégico.

Em um ambiente cada vez mais automatizado, padronizado e guiado por sistemas de inteligência artificial, a capacidade de criar conexões inesperadas, interpretar contextos complexos e produzir soluções originais ganha ainda mais valor. E poucos países desenvolveram uma inteligência criativa tão singular quanto o Brasil. 

Pense na Petrobrás e na extração de petróleo em águas profundas que só o Brasil sabe fazer; no agro e nas soluções tecnológicas que a Embrapa criou colocando o Brasil como um celeiro do mundo; pense em Miguel Nicolelis e suas pesquisas sobre o cérebro que estão na base de quase tudo que há de novo; pense no Pix, que todo mundo está copiando. Às vezes nem percebemos, mas nossa criatividade está presente  em tudo o que fazemos. 

Nossa formação histórica produziu uma sociedade híbrida, diversa e altamente adaptativa. O brasileiro aprendeu, muitas vezes por necessidade, a operar em ambientes instáveis, ambíguos e contraditórios. Isso gerou repertório cultural, flexibilidade cognitiva e capacidade de reinvenção. Características que tendem a se tornar extremamente relevantes em um mundo menos linear.

Talvez exista aí um ponto que ainda não percebemos completamente. O avanço tecnológico não elimina a criatividade humana. Ao contrário. Quanto mais as ferramentas automatizam processos técnicos, mais valor ganha aquilo que não pode ser automatizado: visão, interpretação, sensibilidade cultural, repertório simbólico e originalidade. Numa palavra: criatividade. 

É justamente por isso que a criatividade brasileira pode ganhar protagonismo nos próximos anos. Não apenas na publicidade ou na produção cultural, onde também atuamos, mas em áreas como inovação, comunicação, design, entretenimento, tecnologia e construção de marca.

Sim, o risco de não vermos a importância deste imenso ativo essencialmente brasileiro é muito grande. O Brasil frequentemente subestima suas virtudes e riquezas. Existe uma tendência histórica de valorizar mais o que vem de fora e tratar nossas competências como improviso ou informalidade. Esse erro pode custar caro em um mundo onde a diferenciação passa a ser decisiva.

O novo cenário internacional, pelo menos durante um bom tempo, provavelmente será multipolar, mais fragmentado e mais competitivo. Países disputarão não apenas mercados, mas também influência cultural, capacidade narrativa e produção simbólica. Nesse ambiente, a criatividade deixa de ser detalhe. Passa a ser poder.

Talvez o maior desafio brasileiro seja justamente este: compreender que criatividade não é acessório. Não é ornamento. Não é apenas estética. Criatividade é inteligência aplicada à complexidade. E poucas sociedades no mundo aprenderam a lidar com a complexidade como o Brasil aprendeu.

No final, talvez nosso maior ativo não esteja no que tentamos copiar ou vender hoje ao mundo. Talvez ele esteja exatamente naquilo que o mundo ainda não conseguiu sufocar em nós e agora começa a ter inveja.

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Por Paulo Cezar da Rosa, CEO do Grupo Veraz