Os dados mais recentes do IBGE (publicados no final de 2025) trouxeram um sinal importante para o sindicalismo brasileiro. Depois de mais de uma década de queda contínua, a sindicalização voltou a crescer. Em 2024, 8,9% dos trabalhadores estavam associados a sindicatos, o equivalente a 9,1 milhões de pessoas. (Agência de Notícias - IBGE)
Este é um dado relevante, principalmente porque interrompe uma trajetória longa de retração. Em apenas um ano, foram mais 812 mil novos sindicalizados, um crescimento de 9,8%.
Mas é preciso olhar esses números com mais cuidado. Apesar da recuperação, o patamar atual ainda está muito distante do que já foi no passado. Em 2012, a taxa de sindicalização era de 16,1% dos trabalhadores. Hoje, mesmo após a alta, ela segue praticamente pela metade.
Ou seja, não estamos diante de uma retomada consolidada. Estamos diante de uma inflexão. E parte desse crescimento recente está diretamente ligada à recuperação do emprego formal. Setores mais estruturados, como indústria e administração pública, puxaram essa alta. (CTB)
Isso revela um ponto importante. A base tradicional da organização sindical continua existindo, mas ela está concentrada e, em muitos casos, envelhecida. Mais da metade dos sindicalizados hoje tem mais de 40 anos, o que indica um problema claro de renovação. (FENAJUD)
Ou seja, o desafio dos sindicatos hoje não é apenas crescer em número de sindicalizados. É voltar a ser relevante para um trabalhador que mudou profundamente. Um trabalhador mais fragmentado, mais digital, mais desconfiado e menos conectado às estruturas tradicionais.
Ao mesmo tempo, o ambiente de trabalho também mudou. Houve aumento do trabalho informal, crescimento do empreendedorismo individual e novas formas de relação profissional. Isso dilui vínculos e torna a organização coletiva mais complexa.
Nesse cenário, existe um fator que se torna cada dia mais decisivo e que, muitas vezes, é subestimado: a comunicação. Não basta existir. Não basta representar. Não basta ter pauta. É preciso ser compreendido. É preciso ser percebido como útil. E, principalmente, é preciso ser relevante no cotidiano do trabalhador. Para tudo isso, é preciso comunicar bem.
Os dados mostram que a base social ainda existe. O que está em disputa agora é a capacidade de conexão. A modernização da atividade sindical passa, inevitavelmente, pela forma como ela se comunica. Linguagem, canais, frequência, clareza e posicionamento deixaram de ser aspectos secundários. Passaram a ser centrais.
Temos mais de 30 anos de relação com os sindicatos. Talvez o principal erro ainda seja tratar comunicação como acessório. Em um ambiente saturado de informação, comunicação é estratégia. É presença. É disputa de atenção e de sentido. Hoje, mais ainda que no passado.
O crescimento recente da sindicalização é um sinal positivo. Mas ele não resolve o problema estrutural. Ele apenas indica que existe espaço para reconstrução. A questão agora é quem vai conseguir ocupar esse espaço.
Porque, no final, não é sobre números. É sobre relevância. E a relevância, hoje, começa pelo o quê e como você comunica. ///
Por Paulo Cezar da Rosa
